Educação e Ciência

No passado dia 9 de Outubro (2013), durante as comemorações do Dia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP), foquei-me, ao longo da minha intervenção, em dois pontos – como não poderia deixar de ser, não fossem os dois grandes temas que nos uniam naquele dia -, Ciência e Educação. Tendo em conta os mais recentes acontecimentos, hoje, reformularia o texto, sobretudo no que toca à passagem sobre o investimento público em Ciência. Não obstante o terrífico volte-face, não deixa de ser um texto bastante atual:

‘Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la. Porém, se a não corrigires, não a alcançarás. Entretanto, não te resignes.’ 1

Este parágrafo, que serviu de mote a esta dissertação, surge como epígrafe de um romance ‘histórico’, escrito pelo Nobel da Literatura de há quinze anos atrás, nosso conterrâneo, e que narra o percurso de um revisor textual que pela alteração de uma única palavra (um Sim por um Não) quase mudou a História… pelo menos a escrita – a única que conhecemos. 

Pode parecer a muitos um tanto ou quanto… burlesco… citar, numa Faculdade de Ciências, no seu dia, um homem que, aparentemente, muito pouco teve a ver com o que aqui se trata. Um homem que, apesar de conhecedor, nunca frequentou uma Universidade… Um homem que se notabilizou numa área diametralmente oposta à que nos une aqui hoje… Um homem cujo ídolo não sabia ler, nem escrever…

Porquê Saramago? (Antes de responder ao porquê da citação)

Por duas razões – José Saramago, apesar da sua procedência, defendia frequentemente a Importância da Escola Pública, como por exemplo no seu artigo denominado ‘Democracia e Universidade’ (que desde logo aconselho). O mesmo, na elaboração dos seus trabalhos literários, por incrível que pareça, usou por diversas vezes um modelo similar ao usado na produção de Ciência – o de partir de uma Situação Problema e discorrer sobre ela, até alcançar o objetivo.

Já no caso da epígrafe, escolhi-a pela inquietação que trespassa, a mesma que transborda da mente de um Cientista, quando procura, curioso, uma resposta – vagueando no limiar entre verdades e inverdades, sem se resignar – seja diante do insucesso nos resultados, seja pelas dificuldades que quase todos, atualmente, partilhamos.

Intervenção - Dia da FCUP 2013

Intervenção – Dia da FCUP 2013

Esta longa introdução serve para destacar os dois pontos que me trazem aqui hoje: a Ciência e a Escola Pública (ou simplesmente a Educação).

O primeiro, uma aposta clara dos sucessivos Governos, pelo menos desde 1995, com a criação do Ministério para a Ciência e Tecnologia, e com o progressivo aumento das Dotações Orçamentais para Ciência & Tecnologia, Inovação & Desenvolvimento, que mais do que quadruplicaram desde então, (de 364 milhões de euros em 1995, com o devido ajuste feito, para 1579 milhões em 2013) segundo dados da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência.

No caso do segundo, à Escola Pública me refiro, e focando-me especificamente no Ensino Superior, assistimos a um inverso medonho – só desde 2010, o valor previsto para transferência de verbas através do Orçamento do Estado para os estabelecimentos de ensino superior e serviços de apoio diminuiu 31%, sendo mesmo o valor mais baixo desde 1999, segundo a Direção Geral do Orçamento.

Estas duas grandes áreas, que se perpetuam entrecruzadas, pois a Ciência depende da Educação de nível Superior para crescer, são fundamentais para que um país como Portugal saia do estado em que se encontra.

No caso da Educação, esta serve não apenas de motor ao progresso de um país, mas também de estímulo à formação do indivíduo… da pessoa… do cidadão…

A queda drástica no número de candidatos ao Ensino Superior, este ano, explicada apenas em cerca de 45% por questões Demográficas, deve-se, segundo a investigadora em Política e Administração Educacional da Universidade de Lisboa, Luísa Cerdeira, em grande parte ao facto de as famílias entenderem que esse é um investimento que não terá retorno.

Esta ideia, um parasita resiliente, representa um retrocesso no pensamento português e deve-se de igual forma, tanto à fixação cega do mundo académico por determinadas áreas, em detrimento de outras, quanto ao desinvestimento público no setor.

Cabe-nos a nós, enquanto intervenientes diretos não nos resignarmos, e apostar na melhoria e na defesa do Ensino Superior Público – mas, ao contrário do que assistimos por demasiadas vezes, c-o-n-j-u-n-t-a-m-e-n-t-e – Diretores e Reitores devem incluir verdadeiramente os estudantes nas suas lutas (que também são nossas) – numa união saudável, intergeracional, que só poderá significar Desenvolvimento. Citando ainda Luísa Cerdeira “Seria dramático para o país voltar a ter um Ensino Superior de elite”.

A Educação, na Globalidade, deve ser Universal e Só com uma Educação Universal, se atinge uma Ciência Universal. Uma Educação e uma Ciência que todos os cidadãos reconheçam, com as quais se identifiquem e que defendam.

Para concluir, se há palavra que define Ciência, é a palavra Paixão. Só com muita paixão se consegue dedicar décadas a investigações ingratas, que muitas vezes só de forma póstuma serão reconhecidas. Na noite passada, ao jantar, ao ver as notícias relativas à atribuição do Prémio Nobel da Física – a minha mãe, uma mulher humilde, sem formação superior, mas com o sonho cumprido de ver os três filhos no Ensino Superior – perguntava-me o porquê dos Laureados serem quase sempre pessoas tão idosas – respondi-lhe ‘Que a Ciência leva o seu tempo a florescer! A dar resultados’… Se há algo que levo desta Faculdade, e desta Universidade, consequentemente, não apenas devido à Formação que recebi, mas também ao percurso Associativo Estudantil… É que a Dedicação e a Paixão pelas Causas, quaisquer que elas sejam, são a única fórmula de vencer o Tempo e as suas agruras!

Se as aplicarmos à promoção da Educação e da Ciência, talvez sejamos capazes de reverter aquele que era para Isaac Asimov, o aspeto mais triste da Vida, atualmente, – o facto de a Ciência construir e adquirir conhecimento muito mais rapidamente que a Sociedade adquire Sabedoria’.

1 – Epígrafe do Livro ‘História do Cerco de Lisboa’ – José Saramago (1989)
 

Vídeo da Cerimónia do Dia da FCUP

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