Os Campos de Concentração da Coreia do Norte

Algures no início de Fevereiro, num dos cada vez menos frequentes rasgos de sabedoria que perpassam o meu feed de notícias, um amigo dos meus tempos de Sociedade de Debates da U.Porto, Hugo Volz, partilhava uma notícia sobre o regime totalitário norte-coreano, acrescentando, para os mais curiosos, a sugestão de um livro: Escape from Camp 14 de Blaine Harden.

Ao lê-lo, várias semanas depois, tive acesso a uma narrativa verdadeiramente Orweliana – em que o controlo de massas, cuidadosamente perpetrado pelo Governo da Coreia do Norte, com recurso aos mais diversos géneros de propaganda e influência (desde insinuações anti-ocidente, a falsas declarações de estado de guerra, grandes feitos em jeito de embuste – o mais recente sendo o do homem que foi ao Sol e voltou -, manutenção de um estado de escassez de alimentos permanente, detenções não raras vezes arbitrárias e fuzilamentos públicos, campos de trabalho forçado onde frequentemente recorrem a tortura e se assistem a execuções sumárias, enclausura de até duas gerações de descendentes de dissidentes políticos; citando apenas alguns), mantém os cidadãos subvertidos através de uma máquina muito bem montada de desinformação/informação condicionada.

O livro conta-nos a história de Shin Dong-Huyk, o único norte-coreano nascido num campo de trabalhos forçados a conseguir escapar do mesmo e, consequentemente, do seu país – graças a um número substancial de acasos fortuitos e muita sorte; enquanto nos oferece uma visão geral do panorama político, social e humano e das atrocidades cometidas no país frequentemente designado como o mais isolado do planeta.

Alguns dados elencados no texto dão-nos conta de uma sociedade brutalmente desigual, neofeudal, com uma hierarquia baseada no sangue, criada por Kim Il Sung em 1957, para facilmente identificar e isolar inimigos políticos. O governo terá mesmo classificado e estimulado a segregação da população norte-coreana tendo por base a lealdade e fiabilidade dos familiares dos indivíduos – tudo isto num país que se denomina idealmente comunista, mas que estabeleceu uma sociedade inflexivelmente estratificada, com três grandes classes divididas em cinquenta e um subgrupos, os quais ditam unilateralmente as oportunidades de carreira, para além de configurarem o destino geográfico de cada cidadão: com a principal classe a poder habitar em Pyongyang e arredores, e os restantes a terem muitas vezes de deslocar-se para zonas remotas, ao longo da fronteira com a China.

Nesta ignomínia social, as piores condições estão reservadas à porção da população encarcerada em Campos de Trabalho Árduo, que se estima possa rondar os 154 000 (segundo o Governo Sul-Coreano) e os 200 000 prisioneiros (segundo o Departamento de Estado Norte-Americano e diversos Grupos de Direitos Humanos); privados de cuidados básicos e, acima de tudo, de qualquer tipo de Liberdade, na maioria dos casos para toda a vida.

Como se pode ler algures nas primeiras páginas: «os Campos de trabalho forçado da Coreia do Norte existem há duas vezes mais tempo que os Gulags Soviéticos e doze vezes mais que os Campos de Concentração Nazis». Qualquer indivíduo com acesso à rede pode, através do Google Earth, vislumbrar fotografias de alta-resolução, tiradas via satélite, de campos imensos entre as montanhas no norte do país.

Google Earth's picture of Camp 22 in North Korea

Imagem do Google Earth do Campo 22, na Coreia do Norte

A própria Amnistia Internacional, no fim da análise de uma década de fotografias de satélite, noticiou, em 2011, o aumento do número de construções dentro dos campos, o que pode querer indicar um crescimento constante da população carcerária.

Nem a sucessão no poder, ocorrida em Dezembro de 2011, de Kim Jong Il pelo seu filho Kim Jong Un, muito mais jovem e tendo estudado num colégio na Suíça, parece suavizar as diatribes do regime, muito menos alcançar uma mudança substancial e positiva das condições de vida da generalidade da população.

Este é um livro poderoso, sobre uma realidade cruel e muito atual, que subsiste sob o olhar passivo, indiferente e voluntariamente impotente das grandes potências (se me permitem o eufemismo) mundiais e sob proteção de longa data da própria China; mas que nos dá, de quando em vez, também alguns vislumbres de que a maquinaria opressiva do regime pode estar, aos poucos e poucos, a implodir.

Termino citando uma das passagens mais simbólicas, e que é réplica de um editorial do Washington Post sobre o assunto:

Os estudantes do ‘ensino secundário’, na América de hoje, debatem o porquê do Presidente Franklin D. Roosevelt não ter bombardeado as linhas ferroviárias para os campos de Hitler. Os seus filhos perguntarão, quiçá, dentro de uma geração, porque é que o Ocidente olhou as imagens de satélite muito mais nítidas dos campos de Kim Jong Il, e nada fez.

Entrevista de Shin Dong-Huyk (Youtube)

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