‘“NÓS”, EUROPEUS’, um texto de Ary Ferreira da Cunha

Em vésperas das Eleições para o Parlamento Europeu, e em meio a discussões acérrimas sobre o futuro da Europa, sobre o que verdadeiramente nos une e sobre o que inevitavelmente nos separa, partilho um texto, da autoria de um amigo dos tempos de Sociedade de Debates da U. Porto, Ary Ferreira da Cunha, que considero ser uma visão interessantíssima, bastante completa, sobre Identidade Europeia; a qual é parte integrante de uma obra da Fundação Francisco Manuel dos Santos: ‘Portugal Europeu: E Agora?’.

Ferreira da Cunha, A. (2014). Nós, Europeus. In Lobo, M.C. (ed.) Portugal Europeu: E Agora? Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos:

“NÓS”, EUROPEUS

Uma Baleia passa por dois peixes e comenta «está boa a água, hoje». Um dos peixes pergunta ao outro «o que é isso da água?».

«Eles», Europeus

Em tempos de crescente polarização temos de reafirmar o óbvio: 1) nós portugueses somos europeus e 2) ganhamos em continuar envolvidos no projeto europeu. Não vamos esconder que somos leigos nesta matéria, mas «a política é demasiado importante para ficar nas mãos exclusivas dos políticos», pelo que estas matérias nos parecem merecer uma discussão pública alargada, que não poderá ficar apenas nas mãos dos especialistas.

Ao contrário do banal, o óbvio tem muitas vezes o mal de não ser dito as vezes suficientes. Uma mentira repetida muitas vezes não passa a verdade, mas uma verdade não dita tende a ser ignorada e corremos o risco de ser como os peixes da nossa pequena história, que não sabem o que é a água, porque vivem rodeados por ela.

Não nos preocupa que muitos portugueses não saibam o que faz deles europeus, mas que muitos se referiram à Europa como se falassem de fora dela. Ainda ouvimos dizer que «é como se faz na Europa», ou que «ela foi para a Europa». Isto parece indicar que europeus são «eles» – os alemães, os franceses e holandeses, talvez menos os polacos ou espanhóis – mas raramente «nós», que somos… bem, portugueses.

Mas mais do que sermos periféricos, sentimo-nos periféricos. Ouvimos incessantemente dizer que estamos «na cauda da Europa», uma expressão que evoca simultaneamente o nosso atraso, a nossa pequenez, a nossa subalternidade e a nossa periférica irrelevância. Mais a mais, associamos à Europa níveis de cultura democrática, de respeito pelo Estado de Direito e de progresso económico-social dos quais temos vindo a divergir. Por isso, sentimo-nos ainda menos europeus em momentos de crise, quando esses valores que corretamente identificamos como europeus são testados e em que os sacrifícios nos são apresentados em nome da Europa. Distanciamo-nos da Europa quando a imprensa «europeia» nos pinta como fracos, preguiçosos, atrasados, molengões e aproveitadores, ou quando a imprensa nacional os pinta de volta como frios, egoístas, agiotas, arrogantes e insensíveis.

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A União Europeia falhou?

A nossa identidade europeia está ligada ao nosso apoio à Europa enquanto projeto político materializado na União Europeia (UE). Antieuropeístas – agora eurocéticos – gozam o seu período de maior popularidade em muitos anos, nomeadamente em Portugal.

O caso para estes antieuropeístas assenta por regra em dois argumentos fundamentais. 1) A UE falhou, e 2) O projeto de integração europeia está assente na ideia artificial de que há uma identidade europeia. As nossas duas ideias colidem precisamente com estas.

Mas antes é oportuno dizer que nem sempre a nossa posição relativamente à Europa foi tão pessimista quanto é hoje. Segundo dados do Portal da Opinião Pública, em 1999, 90 por cento dos portugueses achava que o país beneficiava por pertencer à UE, contra apenas 48 por cento em 2010, e possivelmente ainda menos à data em que escrevemos. Mas também nem sempre fomos tão otimistas. Em 1986, 51 por cento dos portugueses achava que o país beneficiava com a então recente entrada na CEE, números muito semelhantes aos de hoje, e na mesma altura apenas 12 por cento dos Espanhóis acreditava nos benefícios que a União lhes podia trazer. É natural que se acumule uma desconfiança nas instituições políticas, consideradas corresponsáveis pelos sacrifícios impostos: em maio de 2013, apenas 10 por cento dos portugueses confiava no Governo, 13 por cento no Parlamento e 9 por cento nos partidos políticos, todos em clara rota descendente.

Não somos acríticos. Para as instituições terem o nosso apoio precisam de funcionar, de resolver problemas das pessoas e tornar o mundo num lugar melhor. Vai para além do escopo deste texto explorar alternativas para melhorar o funcionamento da UE, mas acreditamos que se os líderes europeus conseguissem reforçar simultaneamente mecanismos de solidariedade e de controlo orçamental – o que não é impossível – a situação económico-social poderia melhorar, e a UE passaria a ser vista com outros olhos. Mas podemos dizer que a UE falhou?

Temos de contestar esta ideia a vários níveis. Se o objetivo da UE era assegurar a paz depois de várias «guerras civis europeias», então dificilmente falhou. Depois de séculos de conflitos de grande escala em cada geração, a Europa vai a caminho da terceira geração a conhecer a paz entre os povos europeus. Há hoje milhões de avós e avôs na UE que não experimentaram o flagelo da guerra em primeira mão, algo que é provavelmente inédito.

A UE não será a única responsável por esta situação, mas o mercado único contribuiu para uma integração económica mais profunda em que todos têm – agora mais que nunca – muito mais a perder do que a ganhar com uma guerra. Empresas têm fornecedores e clientes do outro lado da fronteira; a livre circulação de pessoas permitiu a mais pessoas viajar, conhecer e fazer amizades com pessoas de outros povos; através dos seus processos políticos assentes na necessidade de obter consensos alargados, uma forma de dirimir potenciais conflitos. Estes são benefícios tangíveis que a UE traz.

Mas dirão que o objetivo era também económico. Ora, a integração dos mercados europeus, articulada com fundos de coesão, trouxeram benefícios tanto para os países mais desenvolvidos do centro e norte, como para os mais pobres ao sul e leste. Num mercado sem barreiras, os recursos deslocam-se para onde conseguem ser mais eficientes, os produtos para onde podem ser escoados ao melhor preço. Todos ficam a ganhar numa UE sem fronteiras.

Não podemos esperar ritmos de crescimento iguais aos dos países emergentes, onde o ponto de partida é mais baixo, e até termos uma integração mais profunda será difícil fazer comparações com os Estados Unidos. Mas os estados membros estão todos muito melhor do que estavam antes da sua entrada na UE, mesmo depois da crise; algumas das economias mais desenvolvidas do mundo situam-se na Europa; e apesar de um aumento da desigualdade, a generalidade dos europeus continua a usufruir de um bom nível de vida. Saber quanto disto se deve à UE é muito difícil, mas será pelo menos suficiente para afastar análises catastrofistas do efeito económico da UE.

Por fim, a vontade que muitos países na periferia da Europa continuam a ter em juntar-se ao projeto europeu, ou a inveja que muitos dos que vivem em outras regiões do globo têm da forma de integração que a UE encontrou, servem de testemunho ao sucesso da UE.

E «nós» portugueses o que ganhámos?

No caso português, o país ganhou 96.1 mil milhões de euros em fundos, segundo o estudo da Augusto Mateus & Associados e da FFMS (p. 478). Provavelmente, houve um excesso de investimento em infraestruturas, nomeadamente rodoviárias, muita da formação foi de qualidade duvidosa, mas temos hoje infraestruturas muitos mais competitivas e uma mão-de-obra muito mais qualificada também graças aos fundos estruturais e de coesão.

A abertura dos mercados nacionais, depois de décadas protecionismo, não foi feita sem prejuízo de alguns setores e empresas menos competitivas, mas a transformação da economia portuguesa – ainda hoje em curso – poderá vir a permitir uma recuperação da competitividade nacional. Com o euro desapareceu um importante entrave à livre circulação de bens e serviços dentro da UE, beneficiando o nosso turismo. Fazermos parte de um espaço económico como a Europa também nos pode ajudar a encontrar financiamento para os nossos projetos públicos e privados sem os riscos cambiais, e pode facilitar a participação em grupos e cadeias de produção internacionais, potenciando a criação de emprego.

Do ponto de vista jurídico, o esforço de harmonização da legislação europeia teve um impacto muito significativo em Portugal, muita dela promovendo a liberalização de mercados e a regulação da concorrência, fatores decisivos para a competitividade da sua economia.

Mas integrar um espaço económico, político e cultural como a UE não tem apenas vantagens no plano macro. Do ponto de vista micro, o do cidadão português, é sobretudo alargar horizontes. A integração mudou os produtos que consumimos, o percurso académico e profissional de muitos portugueses, a forma como passamos férias e viajamos, as nossas amizades, as pessoas com quem namoramos, casamos, temos filhos. Temos hoje mais possibilidades de escolha, menos barreiras para aproveitar oportunidades de trabalho ou de negócio onde quer que elas se encontrem. Apesar de acharmos no mínimo perigosa para a nossa capacidade de crescimento futuro a saída de alguns dos nossos jovens mais talentosos, por conta da falta de oportunidades em Portugal, a verdade é que a UE facilita a obtenção de emprego noutros países europeus, protege-os da descriminação e permite-lhes evitar os labirintos burocráticos por que têm de passar outros imigrantes. Ou seja, a UE facilita a esses jovens – e menos jovens – encontrarem emprego, ou dedicarem-se a projetos na sua área de interesse, ou obter rendimentos que lhes permitam emancipar-se ou criar uma família.

Investir em Portugal é mais atrativo sem barreiras à exportação para a Europa e com uma rede alargada de tratados de livre comércio na exportação para fora da Europa; estudar em Portugal é mais atrativo se o nosso diploma for reconhecido em qualquer parte; captar talento em Portugal é mais fácil se os estrangeiros puderem gozar a sua reforma no seu país ou se estiverem protegidos contra a discriminação. Portugal é mais atrativo por ser um país da União. E também é mais atrativo ser português por se ser cidadão da União: permite-nos votar na comunidade onde residimos no estrangeiro, usar outros serviços de saúde e estudar nas melhores universidades do mundo por um preço relativamente baixo, usar embaixadas de qualquer país da União se perdermos o nosso passaporte no Laos, encomendar um livro sem pensar se vai ficar preso na alfândega, viajar de Portugal à Suécia sem pensar nos câmbios, passar controlos fronteiriços sem ninguém nos pedir explicações ou subornos.

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Mas e então a união política?

Talvez o grande «calcanhar de Aquiles» da UE seja a dimensão diminuta da sua integração política, pelo menos face às aspirações de alguns. A harmonização de legislação, à escala que é feita, a existência de um tribunal cujas decisões são de facto cumpridas mesmo quando condenam estados membros, o próprio conceito de cidadania europeia, alguma cooperação em matéria de segurança, a existência de uma moeda única e a abdicação de uma política monetária nacional, ou a eleição direta dos membros do Parlamento Europeu, são exemplos de progressos políticos significativos. Mas a UE continua a falar a múltiplas vozes em matéria de política externa, os cidadãos europeus a ter influência demasiado indireta na forma como as instituições europeias são governadas e o interesse de cada um dos Estados a triunfar sobre o interesse geral dos europeus.

Mas é absurdo acusar a UE de falhar numa missão que nunca lhe foi confiada. Se os Estados se recusam a dar-lhe poderes de união política é despropositado acusá-la de não se ter transformado numa. É sobretudo injusto que a crítica da falta de união política da Europa surja dos principais críticos da integração europeia. Muita da ineficiência da UE, muita da sua incapacidade para resolver os problemas da Europa, é criada pelo facto de ter processos de decisão complicadíssimos, que exigem a criação de consensos em múltiplas instâncias.

Parece-nos que a ideia de união política tende a surgir associada ao problema de consagrar um interesse dos povos europeus, ou uma vontade dos povos europeus, que se possa sobrepor ao interesse ou à vontade de cada um dos povos nacionais. Uma união política parece exigir que a unidade política relevante para a definição da política europeia seja a Europa. Caminhar para uma união política significa caminhar para uma UE em que o interesse ou a vontade dos cidadãos de cada estado membro, representados pelos seus governantes nacionais, interessará cada vez menos, mas em que o interesse ou a vontade dos cidadãos do conjunto da União contará cada vez mais.

Isto parece particularmente ameaçador para os cidadãos de um país pequeno, cuja voz pouco parece importar entre centenas de milhões de outras vozes. Mas o mesmo raciocínio nos levaria a preferir que cada região se declarasse um estado soberano dentro de cada país, ou cada cidade dentro da nossa região, ou cada bairro dentro da nossa cidade. O problema destas micro-soberanias fragmentárias é evidente se pensarmos nestes termos. Ainda que dentro de unidades territoriais e demográficas mais pequenas tenhamos uma maior oportunidade de ter voz, essas unidades por si só podem não ter escala suficiente para resolver alguns dos problemas com que se defrontam. Seria muito oneroso para um bairro promover o turismo, até porque quando visitamos uma cidade visitamos vários bairros que poderiam beneficiar com a publicidade sem gastarem nada com isso, mas para uma cidade grande os custos são mais comportáveis. Havendo uma autoridade regional, pode ser mais simples configurar um sistema de transportes que sirva adequadamente a população de diversas cidades, mas não faria sentido cada região manter o seu exército, por exemplo.

Assim, quando alguns bancos são tão grandes face ao orçamento de alguns governos, pode haver benefícios em criar um sistema de garantia bancária à escala europeia. Como algumas zonas deprimidas recebem apoio nacional para o seu desenvolvimento, fortalecendo o todo da economia nacional, países menos desenvolvidos, ou a passar por dificuldades, poderiam recorrer à solidariedade de zonas mais prósperas, que ganhariam com maior coesão económica e social ao conquistarem novos mercados para os seus produtos e oportunidades de investimento para as suas empresas. Tudo isto poderia ser negociado ad hoc, mas com dois problemas: em primeiro lugar, os custos de transação associados a todas essas negociações e, em segundo lugar, o facto de as negociações exigirem unanimidade. Tanto a História como a teoria dos jogos têm mostrado que há um conjunto muito alargado de situações em que quando cada ator age segundo o que entende ser o melhor para si ele não coopera com os restantes atores e acabam todos por ficar numa situação pior do que se tivessem decidido colaborar. E estaríamos todos melhor com mais alguma cooperação nesta crise.

A própria UE não tem escala suficiente para resolver muitos dos problemas que se colocam à humanidade. Precisamos de fóruns globais para responder aos desafios do aquecimento global, do tráfico humano, da proliferação de armas nucleares, do financiamento do terrorismo, do controlo de pandemias, da exploração espacial, ou da segurança no ciberespaço. Não queremos com isto menosprezar as organizações nacionais e infranacionais. Pelo contrário, acreditamos que o princípio da subsidiariedade deve ser observado: só devem ser resolvidos ao nível mais amplo os problemas que este conseguir resolver com vantagem. Caso contrário, deve resolver o problema quem está mais próximo deste, por regra quem mais o sente na pele, quem o entende melhor e quem mais agilmente pode reagir a mudanças.

Mas, então, se são tão evidentes os benefícios que poderíamos retirar de uma UE capaz de agir mais como união política, porque é que o processo de integração parece estagnado?

Ainda que haja vantagens inerentes à criação de entidades supranacionais com poderes de vinculação das entidades nacionais, parece-nos haver limites ao escopo dessas entidades, limites esses marcados pela possibilidade de construirmos uma noção de bem comum. Em democracias representativas, como a que partilham os povos europeus, os cidadãos são chamados a expressar a sua vontade, ajudando os governantes a determinar o que será esse bem comum – uma solução imperfeita, mas possivelmente «melhor que todas as restantes». No entanto, devido à natureza subjetiva das preferências, parece-nos que a ideia de bem comum exige uma noção de comunidade, assente no reconhecimento mútuo da partilha de determinados valores. Apenas esse reconhecimento das nossas afinidades gera empatia e confiança suficientes para aceitarmos perder para a maioria.

Quando há divisões demasiado profundas entre grandes setores sociais relativamente à noção de bem comum, pode formar-se uma maioria capaz de impor democraticamente soluções que são inaceitáveis para muita gente que deixa de se sentir representada. Essas situações são dificilmente acomodadas democraticamente e são geradoras de grande instabilidade social. Assim, não conseguimos imaginar uma união política entre o Paquistão e a Índia, e é com base em argumentos deste tipo que muitos questionam a viabilidade da entrada da Turquia na UE, especialmente se esta se tornar numa união política. Isto leva-nos a considerar se o projeto europeu assenta na ideia artificial de uma identidade europeia.

«Nós», Europeus

Se até numa família todas as pessoas são diferentes, mais o são os habitantes de uma cidade, os cidadãos de um país, ou os cidadãos europeus. Mas nem todas as diferenças têm a mesma relevância. Diferenças de temperamento, diversidade de tradições e hábitos culturais, ou mesmo a multiplicidade de línguas faladas na UE dizem-nos pouco sobre o que realmente importa: a nossa capacidade de funcionarmos como comunidade política, capaz de criar de forma democrática e participada uma noção de bem comum razoavelmente consensual, e que não gere o tipo de reações de repulsa por parte de grandes setores da sociedade que tornam a alternativa – a não integração – uma opção mais viável.

Para isso, importante é a existência de uma identidade comum, mas também que o conteúdo dessa identidade contenha em si elementos relevantes para a formação de uma comunidade política. Uma identidade europeia não excluiu uma identidade nacional. Uma identidade é algo que nós mesmos ou os outros usamos para nos identificarmos, para nos definirmos e localizarmos em relação aos demais. Assim, cada individuo tem muitas identidades, associadas a diferentes aspetos da sua pessoa. A nossa nacionalidade define-nos, mas também a nossa família, a nossa cidade, a nossa profissão, religião, ou preferência política. Diferentes aspetos da nossa identidade são mais ou menos importantes para nós ou para os outros: muitos podem identificar-nos com uma etnia, sem que isso tenha de ser importante para nós, por exemplo. A importância relativa das nossas diferentes identidades também não é estanque, já que certos elementos se tornam importantes em diferentes contextos, tanto por oposição mas também por afinidade. Quando encontro um brasileiro em qualquer parte do mundo, a minha identidade lusófona destaca-se, mas o mesmo acontece à minha identidade europeia quando falo com um norte-americano sobre a pena de morte.

A identidade europeia assenta, antes de mais, em raízes culturais comuns. Na Europa dos mitos gregos, do Direito que se espalhou pelo Império Romano, da moral e tradições cristãs, das catedrais e dos cafés, a Europa berço da filosofia, da universidade, da ciência, partilhamos um conjunto de referências assentes na memória histórica que nos permitem falar a mesma «língua» mesmo quando falamos línguas diferentes. Aprendermos a mesma História, lermos os meus filósofos, ouvirmos as mesmas histórias infantis, partilharmos tantos dos nossos provérbios, e até – ironicamente – estarmos hoje todos sobre a influência cultural americana faz parte desse lastro cultural comum que ajuda a criar uma identidade europeia.

A isto respondem os antieuropeístas dizendo que esta é uma narrativa artificial, que pretende esconder a realidade de séculos em que o conflito foi a norma entre os povos europeus. A história da Europa não é de união, mas de desunião. Como podem povos que se mataram e odiaram durante séculos perdoar o sofrimento que impuseram uns aos outros? Mais, como podem então partilhar de uma identidade comum?

A primeira resposta é a mais cínica. Todas as identidades são construções sociais e as identidades nacionais são frequentemente, se não sempre, promovidas artificialmente de cima para baixo. Podemos ver como a legitimação de uma nova unidade política vem geralmente associada a um esforço de construção de uma narrativa de identidade coletiva, esteja ela assente numa língua, numa religião, num antigo território, que num qualquer tempo remoto gozou de alguma forma de autonomia, numa história de opressão comum, etc.. Podemos ver isto no processo de desagregação da União Soviética e da Jugoslávia, no processo de descolonização em África, ou na criação de Estados como a Alemanha, a Itália, ou a Grécia.

Da tribo à polis, do império ao Estado-nação, fomos descobrindo formas diferentes de nos organizarmos politicamente e criando narrativas legitimadoras para essas formas de organização. Assim, a narrativa de uma identidade europeia não é mais artificial que a narrativa das identidades nacionais, a que os eurocéticos em regra a opõem.

Podem dizer-nos que a artificialidade vem do facto desta identidade europeia nos ser imposta. No entanto, escolhemos ser portugueses tanto quanto escolhemos ser europeus. A decisão de nos identificarmos com uma dada identidade é condicionada pela forma como somos identificados e pelo nosso contexto cultural, pelo que muitas das nossas identidades nos são mais ou menos impostas. Apesar disso, somos chamados a redefinir os termos das nossas identidades: ser português hoje não significará o mesmo que há oito séculos, em parte porque sucessivas gerações foram questionando, acrescentando, ou retirando elementos a essa identidade. Mas para isso é preciso refletirmos sobre o que somos enquanto indivíduos e enquanto comunidade: o que pensamos que somos e o que os outros pensam que somos é fundamental para o que somos de facto. Este processo acontecerá de forma consciente ou inconsciente, mas discutirmos de forma aberta o significado das nossas identidades podemos definir o rumo dessa evolução de forma mais participada.

Em segundo lugar, a existência de conflitos não é mutuamente exclusiva com a existência de uma identidade comum. Conflitos entre católicos e protestantes – bem acesos a determinada altura – não significam que ambos, hoje, não possam encontrar uma identidade comum enquanto cristãos. Mesmo as feridas de uma guerra civil também não são impossíveis de reparar. Com isto não queremos dizer que estes conflitos são irrelevantes, porém, a verdade é que a manutenção da paz no continente europeu pôs fim ao ciclo das vinganças e o tempo diluiu ódio e o ressentimento, a convivência promoveu a empatia, e o trabalho em conjunto promoveu a confiança mútua. Uma terceira geração de europeus que, na sua maioria, não tenha visto a guerra bater-lhe à porta, será uma geração muito mais aberta a perdoar, especialmente se não esquecer as consequências da alternativa.A geração que nasceu numa Europa em paz não vê os outros europeus como inimigos. A geração low-cost que compra voos a dez euros, viu por ela o que os pais muitas vezes só viram no mapa e viveu o que os mapas não permitem viver: ficou num hostel com alemães em Estocolmo, recebeu um croata no sofá de sua casa, ficou amigo de um polaco, que vivia em casa de um amigo português que estava a tirar medicina na República Checa. Quem fez InterRail acordou sem a certeza, ou a preocupação, de saber ao certo em que país estava. Quem fez Erasmus ganhou uma cidade e um outro país na Europa onde sentir-se em casa, deu graças ao inglês que a escola lhe ensinou, tirou o francês da gaveta, arranhou o espanhol, e voltou para casa a saber umas coisas de mais uma dúzia de línguas, ensinadas por outros tantos bons amigos. Quem participou no circuito europeu de debate competitivo aprendeu com pessoas de todos os países sobre o conflito nos Balcãs, as tensões na Turquia, o ensino dos países nórdicos, ou as privatizações na Europa de Leste, mas sobretudo fez amizades com pessoas interessantes com todos os pontos de vista e a vontade de saber mais. No final, são as amizades criadas através destas experiências que nos permitem compreender quão curta é a distância que nos separa no essencial.

Mas talvez os que tiveram a oportunidade de ir para fora da Europa se tenham apercebido ainda melhor da sua identidade europeia. Quando viajamos para outras partes do globo e de repente ouvimos alguém negar teoria da evolução, ou dizer que só um sistema de partido único garante a harmonia social, ou que o papel das mulheres é tomar conta dos filhos, não podemos deixar de valorizar pertencermos a um espaço civilizacional onde atingimos um consenso amplo relativamente a determinadas coisas. Quando defendemos o modelo social europeu, ou as restrições ao porte de armas de fogo com um americano, sermos europeus torna-se mais importante para nós e mais evidente para os outros. Mais a mais, em muitos países fora da Europa o único significado que carrega é o de sermos europeus.

Finalmente, temos de equacionar se existindo uma identidade europeia ela é de alguma utilidade para a constituição de uma união política. Somos muito diferentes no temperamento, mas as nossas raízes comuns – a que nos referíamos anteriormente – permitiram-nos construir uma visão da sociedade e do valor da pessoa que pretende precisamente equilibrar o individual e o coletivo através de processos políticos democráticos e da aceitação dos mecanismos do livre mercado mitigados pelo estabelecimento de direitos.

Isto separa-nos tanto de sociedades com ideais mais individualistas, como os Estados Unidos; como de sociedades com ideais mais coletivizantes, como algumas na Ásia ou na América Latina; ou de sociedades sem tradição democrática como algumas em África ou no Médio Oriente. Há algumas sociedades em que esta combinação de ideais prospera, no Canadá por exemplo, mas isso acontece por influência europeia, ou partilha dessas mesmas raízes.

Podemos ter mesmo níveis diferentes de cultura democrática, de respeito pelo Estado de Direito e de progresso económico-social, que vemos como europeus e dos quais temos vindo a divergir, mas partilharmos com todos os europeus a ambição de construir uma sociedade do bem-estar, que apesar de todas as diferenças tem muito de comum, tem algo de democracia grega e de respublica romana; de dignidade da pessoa humana católica, mas de secularismo francês; de individualismo liberal inglês, mas igualdade de oportunidades nórdica; de tolerância holandesa; de Rechtsstaat germânico e de liberté, egalité, et fraternité gaulesas.

Isto mostra-nos que a identidade europeia não é só uma questão de raízes comuns, mas também de influências mútuas. Ela não é uma realidade estática à qual aderimos, ou que rejeitamos, mas dinâmica: para a qual somos chamados a contribuir com as nossas múltiplas identidades nacionais, regionais, religiosas, filosóficas, políticas ou outras. Se a identidade nacional portuguesa tem algo de valioso ela fará parte do contributo que podemos dar para a identidade europeia. Afinal, o projeto europeu precisará sempre de alguma da miscigenação e de muito do «desenrascanço» lusos. E se nós, portugueses, também podemos ser europeus, nós europeus também podemos ser portugueses.

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